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Sexta-feira, Outubro 14, 2005

Quando eu nascí, há quase 28 anos, meus pais não tinham condições financeiras de contratar uma babá para cuidar de mim, assim, fui para na casa da minha avó materna. Passei quase 9 anos da minha vida sob a sua criação, quase 9 anos da minha vida sendo alvo da sua artilharia. Seu filho vai ser viado - ela dizia sempre a minha mãe, essa letra é de mulher, acrescentava. Para mim era completamente dificil e doído passar a vida ouvindo isso, até porque mesmo me sentindo diferente dos outros meninos nem sabia o que era de verdade ser homossexual. Meus pais foram nesse embalo, e o resultado disso foi a minha infância de total isolamento, não queria me mostrar, pois me mostrando eu estaria comprovando aquilo que eles acreditavam ser a mais pura verdade: eu era viado. Não tinha amigos, vivia no meu mundo de fantasia e ilusão, como diria Fernando Pessoa: "inventava palco, cenário, para viver o meu sonho". A minha magoa era tanta que eu jurava para mim que quando pudesse sair de casa, faria, e não olharia para trás, não queria nem ver a cara daquelas pessoas que não me deixavam respirar. Era tudo muito cruel para mim, um simples gesto meu fazia com que eles derrubassem em mim o mais pesado julgamento.

Crescí, começei a assumir para mim mesmo a minha homossexualidade, a me abrir para as pessoas, minhas mãos começaram a saber dos meus pés, larguei o cais(Renascer). Minha relação com meus pais melhorou muito, não é ideal, e nunca será, mas com minha avó não. A última briga que tivemos foi quando descobri trotes passados por ela dizendo que eu era garoto de programa. Depois dessa briga, houve internamento eu um hospital por parte dela e de uma vez por todas nos distanciamos.

Hoje ela está com um câncer grave, deitada na cama de um hospital. Quando soube da notícia, o único sentimento que eu tive foi o mesmo que teria por uma pessoa desconhecida, aquele sentimento que nós temos por todo ser humano quando sabemos que o mesmo está morrendo dessa forma. Nada de neto - avó. Nada disso. Cobraram de mim uma cena perdão vovó por tudo o que você me disse e fez. Nos encontramos e não houve essa cena. Aliás me sentí excluído, não conseguí ter o carinho que todos os netos alí estavam tendo por ela. Mas e daí? Queriam o que? Que eu caisse em lágrimas: minha vovó amada esta morrendo? Não sei fazer essa cena.

Percebí com isso tudo que ando muito distante da minha mãe, isso tudo porque, pasmem, nós três somos muito parecidos. Senti dificuldade de chegar perto dela quando a via aos prantos no sofá. Nós não eramos assim. Por minha mãe não aceitar o fato de eu ser gay, por achar que é o castigo divino, ou que ela errou de alguma forma na minha criação, eu resolví também me afastar dela, mesmo existindo um amor muito grande entre nós. Isso sim me doeu. Isso sim ainda me dói. Mas pelo menos é um sinal de que pode ser mudado.

Não sei se sinto magoa da minha avó(minha terapeuta diz que sim), sei que me sinto indiferente. Nunca escreví tanto aqui no blog. Não sei se vocês vão conseguir chegar até o final desse post. Mas sentí vontade de desabafar. Termino com Jota Quest(Dias Melhores).

Dias Melhores
Jota Quest
Composição: Rogério Flausino

Vivemos esperando
Dias melhores
Dias de paz, dias a mais
Dias que não deixaremos para trás

Vivemos esperando
O dia em que seremos melhores
Melhores no amor, melhores na dor

Melhores em tudo

Vivemos esperando
O dia em que seremos para sempre
Vivemos esperando
Dias melhores para sempre

Vivemos esperando
Dias melhores
Dias de paz, dias a mais
Dias que não deixaremos para trás

Vivemos esperando
O dia em que seremos melhores
Melhores no amor, melhores na dor

Melhores em tudo

Vivemos esperando
O dia em que seremos para sempre
Vivemos esperando
Dias melhores para sempre


postado por Longas Cartas pra Ninguém às 4:39 PM